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A viagem para leste a partir de Tavira: Cacela Velha, o sapal e o Guadiana

Atualizado 23 de setembro de 2026 · 8 min de leitura

Um caminho de calçada serpenteia junto a um muro caiado de branco sobre a ria, com uma palmeira e um banco em primeiro plano, e bancos de areia e água azul ao fundo

Se alugar um carro em Tavira por um único dia, este é o dia certo para isso. O percurso segue para leste ao longo do último troço da Ria Formosa, vira para o interior junto ao Guadiana e acompanha o rio para norte até o Algarve deixar de parecer o Algarve. Cerca de sessenta quilómetros de ida, o mesmo caminho de volta, e, se for feito com calma, ocupa o dia inteiro.

É também a única direção em que o comboio não ajuda. A Linha do Algarve chega até Vila Real de Santo António, na costa, e para junto ao rio. Tudo o que fica rio acima daí – os sapais de Castro Marim, Alcoutim, as aldeias da fronteira – só é alcançável por estrada. Esse é o argumento a favor do aluguer, e a razão para escolher este percurso e não outro, mais bonito, para oeste.

Sair da cidade, e a questão da portagem

Há dois caminhos para leste. A A22, a Via do Infante, é rápida e agora gratuita: a portagem foi abolida a 1 de janeiro de 2025, ao abrigo da lei publicada a 7 de agosto de 2024 no Diário da República, que pôs fim à cobrança nas antigas autoestradas SCUT que não têm alternativa equivalente. A concessão mantém-se para manutenção e exploração, mas já ninguém cobra pela circulação. Qualquer conselho – ou qualquer oferta ao balcão – para comprar um dispositivo de teleportagem para a autoestrada do Algarve pode ser ignorado.

A N125 é a estrada antiga, mais lenta, com rotundas, semáforos e as localidades enfiadas ao longo dela. Para este percurso, o melhor é apanhar a A22 na ida e a N125 no regresso; as paragens interessantes ficam, de qualquer forma, fora de ambas.

Ateste o depósito ainda na costa, antes de virar para o interior. Não contámos os postos de combustível ao longo da estrada do rio e não planearíamos o dia à espera de encontrar um.

Cacela Velha: um quarto de hora, e vale o desvio

A doze quilómetros a leste de Tavira, um quarto de hora, sinalizado a partir da N125, há um promontório com uma igreja, uma fortaleza, um punhado de casas brancas térreas e uma das melhores vistas do sotavento algarvio – direta sobre a última ria da Ria Formosa e o banco de areia que a fecha.

A Câmara Municipal de Vila Real de Santo António descreve a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção como construída em 1518 sobre as ruínas de uma estrutura medieval anterior, e a fortaleza como uma obra do século XVII erguida num local onde já romanos pescavam e produziam sal, e onde muçulmanos ergueram muralhas. A fortaleza estará em uso pela Guarda Nacional Republicana, segundo se conta; a câmara descreve-a, mas não publica informação para visitas, por isso o melhor é vê-la de fora. Isso não é problema, porque o que importa é a vista, e a vista é gratuita.

Duas notas honestas. Não encontrámos qualquer indicação oficial sobre estacionamento, e a aldeia tem apenas umas quantas ruas de largura; os relatos de viagem são unânimes em dizer que os lugares escasseiam e que no verão se deixa o carro no acesso e se segue a pé. E a calçada e a inclinação tornam esta paragem difícil para quem tem mobilidade reduzida – o mesmo problema que a própria cidade tem, descrito em Tavira com mobilidade reduzida.

Por baixo da aldeia fica a Praia da Fábrica, o embarcadouro para o banco de areia. A travessia é um pequeno passeio de barco, não é a pé, e é sazonal. Se uma praia fizer parte do plano, vale a pena ler primeiro praias para crianças perto de Tavira – aqui um carro não o leva até à areia, tal como não leva em Tavira propriamente dita.

Castro Marim: a reserva mais antiga do país

Mais dez quilómetros para leste – vinte e três ao todo a partir de Tavira – e a paisagem muda de ria para sapal. A Reserva Natural do Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António foi criada em 1975 pelo Decreto-Lei n.º 162/75 e foi a primeira reserva natural criada em Portugal. É sapal, salinas e água salobra onde o Guadiana encontra o mar, e é um dos locais fiáveis do país para ver flamingos-comuns, colhereiros, alfaiates e cegonhas.

Esta paragem tem uma época própria, e é o oposto da época balnear. No inverno estão os flamingos e os colhereiros; na primavera chegam as cegonhas. Em agosto há calor, luz forte e menos aves. Se estiver por ali em julho, faça esta paragem logo de manhã ou não a faça, e leve mais água do que acha necessário – numa salina não há sombra nenhuma. Qualquer dúvida médica sobre calor ou sol é uma pergunta para uma farmácia, e as farmácias portuguesas percebem bem disso.

Por cima do sapal fica o castelo, com a vila por baixo. Optámos deliberadamente por não indicar horário de funcionamento nem preço de entrada: as páginas da câmara mudaram de endereço e não conseguimos confirmar um valor atual, e um horário errado custa uma hora do único dia de condução. Confirme no local.

A Ponte Internacional do Guadiana leva aqui a A22 até Espanha, e Ayamonte fica a um desvio de vinte minutos. Antes de o fazer: tirar um carro alugado de Portugal exige normalmente autorização prévia da locadora e um produto transfronteiriço, e sem isso fica fora do seu próprio contrato. Isso, e o resto da questão financeira, está em franquia, caução e o que se acrescenta ao balcão.

Para norte, até Alcoutim, que é a verdadeira recompensa

A partir de Castro Marim, sobe-se primeiro para norte pela EN122 e pela via que lhe sucede ao longo do extremo oriental do Algarve, para depois descer até à M507, a Marginal do Guadiana, que acompanha a margem direita entre a Foz de Odeleite e Alcoutim. Esse último troço é a verdadeira razão para fazer este percurso: alcatrão normal, curvas sem fim, o rio que aparece e desaparece lá em baixo, e amendoeiras que tingem de rosa as encostas no final do inverno. Não é uma estrada rápida, e não pretende ser – contam-se cerca de quarenta minutos entre Castro Marim e Alcoutim se optar pela estrada do rio em vez do percurso direto. O Guadiana aqui é um rio largo e verde, com Espanha na margem oposta, colinas dos dois lados, e aldeias que veem apenas uma fração do trânsito da costa.

Alcoutim é o ponto final: uma pequena vila branca junto à água, em frente a Sanlúcar de Guadiana. Entre as duas há um ferry de passageiros – um barco pequeno, só para pessoas, sem carros – e a travessia tem um pormenor que apanha toda a gente desprevenida. Espanha está uma hora à frente de Portugal. Quem atravessa à uma e meia para almoçar chega às duas e meia, a uma cozinha espanhola perfeitamente à vontade com isso; quem regressa ao que parecem ser quatro horas chega, na verdade, às três. Convém confirmar localmente a hora do ferry de regresso, seja qual for o relógio do país em que o horário está escrito.

Para quem quiser o rio sem conduzir, há passeios de barco pelo Guadiana a partir de Vila Real de Santo António. É outro dia, não este.

A cascata: planear em torno dela, não para ela

Algures na sua pesquisa vai encontrar o Pego do Inferno, uma cascata e um poço verde nas colinas a poucos quilómetros de Tavira, e que fica lindíssimo em fotografia. Não construa um dia de condução à volta dele.

Está encerrado ao público desde 2012, depois de um incêndio ter destruído as estruturas de madeira que permitiam o acesso seguro. A Câmara Municipal de Tavira elaborou, no final de 2019, um projeto para restabelecer o acesso através de um passadiço noutro ponto do rio, mas o terreno é propriedade privada e as obras não avançaram; foram citadas tanto a seca como outros compromissos da câmara. Em julho de 2026 a imprensa portuguesa ainda noticiava, sob o título de que continua sem haver acesso à cascata do Algarve. Chegar até lá hoje implica atravessar canaviais e terrenos privados, e diz-se que os proprietários estão descontentes com isso.

Vale a pena saber se estiver a comparar passeios: um dos mais bem avaliados a partir de Tavira anuncia uma “paragem na cascata” com banho, e a sua página de reserva não nomeia a cascata. Isso não é uma acusação – há operadores que visitam poços fluviais que não são o Pego do Inferno, e algum terá um acordo privado ou um local diferente. Mas é a pergunta a fazer ao operador antes de reservar, e é algo a que um carro alugado, definitivamente, não o consegue levar.

Onde a visita guiada vence o carro exatamente neste percurso

Três locais, e são concretos.

Os caminhos das salinas. Os caminhos de trabalho que atravessam as salinas de Tavira, Santa Luzia e Castro Marim não são pavimentados, e a maioria dos contratos de aluguer exclui danos sofridos fora de superfícies pavimentadas. Os jipes circulam por lá porque estão preparados para isso. Os passeios de salinas e flamingos vão onde o seu Fiat Panda, por contrato, não devia ir – e a visita privada de jipe a Cacela Velha e à Ria Formosa cobre grosso modo a primeira metade deste percurso, com outra pessoa ao volante.

O almoço. O limite em Portugal é de 0,5 g de álcool por litro de sangue, e de 0,2 g/l para condutores em período probatório e para condutores profissionais. Um almoço demorado com vinho em Cacela Velha, seguido de condução até Alcoutim, não cabe no mesmo dia. Ou alguém se abstém, ou reserva um passeio gastronómico e deixa que outra pessoa conduza.

As aves. Um flamingo reconhece-se sozinho. Saber que a ave branca com o bico em forma de colher ao lado é um colhereiro, e porque razão ambas estão ali em fevereiro e não em agosto, é para isso que serve um guia. O guia das salinas de Tavira indica que passeios terrestres o fazem bem.

Como é realmente o dia

Saída de Tavira depois do pequeno-almoço, Cacela Velha às nove e meia, antes do calor e da procura de estacionamento, Castro Marim e a reserva a meio da manhã, Alcoutim para almoçar, a estrada do rio de regresso à tarde, em casa antes de a luz se ir embora. No inverno isso é confortável. Em agosto, convém sair mais cedo e contar com um ritmo mais lento.

Para quem preferir não conduzir nada disto, boa parte da metade costeira é alcançável de comboio – Tavira sem carro mostra exatamente até onde isso chega, e Faro, Olhão e Tavira num dia é a versão deste dia que se faz com bilhetes de comboio. A região mais alargada, incluindo as partes que este percurso deixa de fora, está em o que fazer no sotavento algarvio.

E para quem ainda não decidiu se vale a pena alugar carro, esse argumento é discutido em detalhe em é preciso carro em Tavira. Se já sabe que sim, compare preços antes de chegar – não somos uma empresa de aluguer e a reserva é feita diretamente com a Discover Cars.

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